Resumo:
Tomando como ponto de partida o artigo Visual Narrative, do escultor e
marionetista israelense Hadass Ophrat, o autor comenta o espetáculo de
animação “Sangue bom” ressaltando a importância do emprego do animador
aparente como um elemento determinante do teatro de animação de bonecos
e formas contemporâneo.
Sobre o autor:
Mario Piragibe é ator, formado em teoria do teatro pela Uni-Rio,
e atualmente cursando mestrado em teatro nesta mesma instituição. Há
onze anos trabalha com teatro de animação (bonecos, objetos, sombras),
onde participou como ator-manipulador, autor, adaptador de texto, e
orientador de manipulação de diversas montagens profissionais. O título
de sua monografia de conclusão do curso de graduação em Artes Cênicas
é: Relações entre a animação de formas e aspectos contemporâneos de
encenação no teatro de Ilo Krugli.
Comunicação: Título do pré-projeto:
Aspectos de utilização do texto teatral no teatro de animação brasileiro
contemporâneo.
Professor orientador: José da Costa Filho
A presente comunicação lida com questões que vêm sendo por mim trabalhadas
no projeto de pesquisa apresentado em nível de mestrado em teatro, em
curso na Universidade do Rio de Janeiro. Essa pesquisa se propõe a investigar
os meios de eleição (escolha/adaptação/escrita), notação e inserção
(hierarquia, relação com os demais elementos constitutivos da cena)
do texto teatral em experiências relacionadas ao teatro de animação
contemporâneo, ou seja, com espetáculos de companhias e de iniciativas
artísticas dedicadas a trabalhar com o teatro de animação de bonecos
e formas de modo a incorporar as indagações e as tensões propostas dentro
do contexto artístico identificado como contemporâneo.
Gostaria então, de procurar tecer alguns comentários a respeito de uma
reflexão que orienta em grande parte as minhas indagações e formulações
acerca da relação da cena contemporânea de teatro com a animação de
formas, e como estas se relacionam com a transformação da idéia de texto
teatral em processo a partir do que se denominou modernidade tardia.
Ao observarmos os trabalhos de algumas companhias brasileiras de teatro
de bonecos fundadas ao longo das últimas duas décadas, como é o caso
dos grupos Sobrevento de teatro de bonecos, da Companhia PEQUOD de teatro
de animação, e do grupo TRUK´S, e de algumas iniciativas internacionais,
tais como o grupo La Troppa, do Chile, os Minutemen, de Israel, os espetáculos
do encenador francês Phillip Genty, e do artista plástico alemão radicado
na Holanda Neville Tranter, será possível observar o emprego do animador
aparente, e seu conseqüente aproveitamento dentro do espetáculo teatral.
O animador de bonecos, marionetista ou titeriteiro, nos trabalhos dos
artistas e companhias citadas, não se encontra protegido pela empanada,
panejamento ou quaisquer estruturas de ocultação. Mais que isso, os
operadores dos bonecos ou objetos, pelo fato de estarem visíveis ao
público, encontram-se inseridos dentro do próprio contexto do espetáculo,
operando desta forma um tal número de quebras e desdobramentos sobre
a percepção da cena teatral. O “puxador de fios”, posto diante dos olhos
dos espectadores não busca mais escamotear sua influência sobre os bonecos,
ele de fato a usa como parte do espetáculo, o que resulta num desdobramento
da trama ficcional em planos distintos: o do boneco e o do personagem
que o manipula. O espetáculo cinde-se em “espaços” enunciativos simultâneos,
que podem ou não dialogar de dentro do contexto ficcional, mas cujo
convívio opera uma interferência obrigatória na maneira como a ação
cênica é lida.
Com vistas a melhor explicar o que acabo de afirmar, gostaria de tomar
como exemplo o espetáculo “Sangue bom”, que estreou no ano de 1999 no
Rio de Janeiro, sendo apresentado pela companhia PEQUOD de teatro de
animação, com concepção e encenação de Miguel Vellinho. O espetáculo
é uma paródia aos antigos filmes de horror que mostravam a figura do
vampiro Conde Drácula. A irreverência expressa no próprio título dá
conta do tipo de brincadeira que se pretende fazer. O espetáculo emprega
bonecos manipulados de forma direta, ou seja, construídos de corpo inteiro
e articulados, com os animadores (podendo chegar a até três em um único
boneco) operando-os diretamente com as mãos sobre seus membros e cabeça
(que pode vir a ter uma pega curta), e desta forma dando-lhes movimento.
O texto do espetáculo não contém falas. Há, sim, sons incompreensíveis,
supostamente pronunciados pelos personagens, (uma vez que ditos pelos
animadores), à feição de algaravias e onomatopéias.
O cenário da peça é formado por caixas móveis, que servem, tanto para
compor a caracterização de um cais antigo – caracterização essa que
é complementada pelo figurino andrajoso dos atores e pela forma como
estes transportam as caixas, aludindo ao trabalho de estiva –, também,
com uma alteração da luz, sugerir a miniatura de um castelo sinistro,
e finalmente, para reproduzir cenários de interior, onde se desenrolam
grande parte da ação dos bonecos na peça, apoiando-os sobre as caixas-cenários,
com os atores manipulando-os por trás.
Neste momento interrompo a descrição de Sangue bom para citar um artigo
escrito pelo escultor e marionetista israelense Hadass Ophrat, publicado
no primeiro número da revista E pur si muove, editada pelo Instituto
Internacional da Marionete. O artigo, intitulado Narrativa visual, começa
da seguinte maneira:
Os anos oitenta e noventa viram o uso hegemônico do podium, mesa,
ou... tábua de passar roupa como aparo conveniente para animação de
bonecos (geralmente bonecos de vara em manipulação posterior, revelando
o animador), bem como para afixação de elementos cenográficos. Este
uso, embora altamente funcional, ignora o espaço que rouba do palco.
(OPHRAT: 2002, p.31.)
Mais adiante, no mesmo artigo, Ophrat menciona que o fato de parte
do teatro de bonecos praticado ao longo das três últimas décadas valer-se
do recurso do suporte aberto para manipulação aparente acaba por dispor
“um palco sobre um palco”. Gostaria então, de chamar atenção para essas
duas colocações feitas por Hadass Ophrat. A primeira, acerca do que
ele considera um “roubo” do espaço do palco, e a segunda acerca da justaposição
de palcos observada em parte do teatro de bonecos contemporâneo.
No caso de Sangue bom,
as caixas manuseadas pelo elenco, e que servem de apoio de manipulação
aos bonecos apresentam-se como palcos móveis que solicitam ao olhar
do público a precedência hierárquica sobre o outro palco, transformado-o
parcialmente em suporte de palcos, mas em cujo espaço desenrola-se uma
ação que postula para si certa independência em relação ao que poderia
ser considerada a ação principal da peça, desempenhada pelas ações dos
bonecos. A outra ação, dos atores-manipuladores, é menos aparente, quase
sub-reptícia, mas ainda assim propositadamente visível, e trata simultaneamente
do ato de “fazer” a peça – pela forma como a ação da manipulação dos
bonecos e do transporte das caixas é inteiramente evidente aos espectadores
– e de uma ação relativamente independente àquela trama considerada
central, inserindo assim a ação dos atores a um contexto que não se
relaciona obrigatoriamente com a trama principal.
Sobre esse espaço “roubado” do palco teatral convencional monta-se um
palco em miniatura, sobre o qual se desenvolve uma ação supostamente
mais importante. Entretanto, ao permitir que se veja o que resta do
palco maior, e sobretudo, que se vejam as ações que os atores-manipuladores
executam sobre ele, o palco de bonecos permite que o olhar do público
desvie e passeie entre a ação primária e as várias ações secundárias,
o que resulta na instauração de uma determinada dinâmica na percepção
do espetáculo.
O que acontece é que o “ladrão” acaba por permitir-se roubar por aquele
que antes era considerada a “vítima”, propondo uma inversão voluntária
dessa relação. Será a ação suave dos atores-manipuladores que aos poucos
envolverá o público em um espetáculo múltiplo, em que planos narrativos
sobrepõem-se, operam movimentos alternados de fusão e cisão, aproximam-se
de um nivelamento hierárquico, propõem alterações à leitura da trama
espetacular.
Esse ato de sobreposição de linhas narrativas observado em parte do
teatro de animação contemporâneo relaciona-se com outras características
da animação de formas tais como: a tradição do texto improvisado e da
ação muda, a relação usual de precedência que a modelagem do boneco
exerce sobre a definição do personagem e sobre a trama do espetáculo,
e a grande importância dada à visualidade nas apresentações com bonecos
em diversas culturas e tradições.
No artigo anteriormente mencionado, Hadass Ophrat afirma que a técnica
de exposição do animador fundou uma nova narrativa para o teatro contemporâneo
de bonecos, que ele chama de narrativa visual. Esta, entre outras questões,
enfatiza em vez da unidade da trama, a relação que se opera entre as
múltiplas tramas que o espetáculo dispõe diante da platéia. Diz ele:
A narrativa visual, diferente da narrativa dramática, oferece uma
nova sintaxe: no lugar da sintaxe circunstancial, esta é associativa.
Em vez de sintaxe linear, esta possui inúmeras camadas, é sincrônica
e integrativa. (OPHRAT: 2002, p.33.)
Entretanto, embora o uso dos pódiums e caixas evidenciem a superposição
de linhas narrativas – a torne mais evidentemente perceptível –, essa
narrativa pós-moderna evocada por Hadass Ophrat estabelece-se basicamente
a partir da relação do animador aparente com a forma animada. Seria
o encontro em cena desses dois elementos: ator-manipulador e boneco/forma
animada, um operador importante da transformação na maneira de se fazer
teatro de animação nos últimos vinte ou trinta anos.
Para Ophrat a construção do tablado sobre o palco é um recurso redundante,
e portanto dispensável para a construção de uma narrativa associativa,
uma vez que seria o animador aparente o principal agente desse efeito.
Entretanto, salta aos olhos a objetividade e a clareza com que o teatro
de bonecos contemporâneo – no caso o espetáculo Sangue bom – dispõe
a sobreposição de planos narrativos, servindo mesmo como modelo ou instrumento
pedagógico de demonstração dessa e de outras questões pertinentes ao
teatro na pós-modernidade, como seria o caso da consideração da idéia
de personagem ou de representação do sujeito, assunto sobre o qual permito-me
fazer um breve e superficial sobrevôo, apenas para mencionar um possível
desdobramento da discussão que apresento.
Em Sangue bom, a construção de vários bonecos para um mesmo personagem
permite que estes apareçam em cantos opostos do palco em frações de
segundos, fazem com que um boneco mude das mãos de um manipulador a
outro, permite que a voz de um personagem seja executada por um ator-manipulador
distante do boneco que o representa. Enfim, espalha ao longo do espaço
diferentes focos simultâneos de produção da personagem, pulverizando,
descentrando a sua própria percepção. E, de fato, a visibilidade dos
meios de apresentação da personagem, processada por meio do uso do animador
aparente, é o principal elemento provocador dessa cena tensa, em que
as suas forças constitutivas relacionam-se problematicamente.
Espero ter conseguido, com essa breve comunicação, deixar claras uma
das indagações que orientam a minha pesquisa acerca do relacionamento
existente entre a linguagem da animação de formas e a cena teatral contemporânea,
sobretudo no tocante à relação do contemporâneo teatro de formas animadas
e o texto teatral.
sobe
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