Sinopse
2 de março de 2015
Críticas
2 de março de 2015

Textos

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A LA NAVE VA

E nesta ilha desolada, nada vos fará escapar dessa fúria,
a não ser o arrependimento e a busca de uma vida imaculada.
A Tempestade, Ato III, Cena III

Nestes últimos dois anos, a PeQuod embrenhou-se em mais um projeto de grande ousadia: trazer Shakespeare para a sua seara e verificar que aproximações poderiam ser construídas em torno da linguagem característica desta companhia com a mais misteriosa obra do bardo. Fomos surpreendidos pelo fundo falso da obra, que, se a princípio dava amostras de compatibilidade com o nosso ofício, em um segundo momento revelou a periculosidade desse encaixe. Depois de muitas versões, inúmeras tentativas, muito sangue, suor e lágrimas (estas, em bem maior quantidade), chegamos a um princípio norteador da montagem, em que nossa maior “especialidade” pouco contribuía para o levantamento dest’A Tempestade. Deste modo, instalou-se o grande desafio entre nós: para montar Shakespeare, este Shakespeare, dependíamos essencialmente de nós, dos nossos corpos, nossas expressões e nossa capacidade de transformar algo escrito há tanto tempo atrás em vida. Em vida novamente. A gestação deste espetáculo nos trouxe um filho bem diferente dos outros tantos. A questão das relações estabelecidas entre os personagens da peça e do trânsito de poder evidenciou-se, impondo novas discussões na PeQuod. Ao falarmos das relações de poder, impossível não falar de política. Talvez este seja nosso primeiro esboço sobre o tema.

Não há dúvidas de que este projeto modificou-nos como grupo. Temos certeza também de que foram abertos alguns canais de expressão de cada indivíduo que passou por este projeto, proporcionando uma riqueza a mais no nosso trabalho. A dor latente de alguns personagens da peça impregnou-se em nós e nos empurrou para um abismo ainda não explorado pela PeQuod. Desta vez, os bonecos ficaram em casa; precisávamos de vida verdadeiramente vivida no palco, não poderíamos contar com a destreza da técnica, a perfeição das formas, a pureza que só um boneco tem. Precisávamos de carne, sangue, ossos e, sobretudo, das nossas imperfeições. Lentamente, o ritual de sacrifício foi preparado, montado, desmontado, vestido, despido, tramado até chegarmos a esta forma final, que, obviamente, não finaliza nunca e se refaz nas noites em que há espetáculo. Nas noites em que não há também. Nosso trabalho aqui serviu-nos para exercitar nossas capacidades interpretativas, crescermos como artistas e entendermos um pouquinho mais sobre nós mesmos. Isto parece tão óbvio, mas, perdoem-nos, não é. Saímos deste longo processo refeitos, renovados, embora estranhos a nós mesmos. O infortúnio foi nosso companheiro na sala de ensaio. Se, por um lado, isso potencializou capacidades que há muito precisavam de exposição, por outro obrigamo-nos a transformar dificuldades de várias ordens em celebração. Celebremos, pois! Somos todos sobreviventes de um naufrágio. Quando a noite chega, dirigimo-nos a um lugar estranho, cheio de luz e sombra. Cheio de som e fúria que não significa nada.
Nesta jornada, novos e antigos companheiros embarcaram nesta PeQuod rumo a um mar de inquietações das mais estranhas e perigosas. Agradecemos a todos que se lançaram nesta aventura com o coração aberto.

Passamos por uma tempestade, isto é certo. Mas estamos vivos!

Miwa Yanagizawa e Miguel Vellinho