Sinopse
2 de março de 2015
Críticas
2 de março de 2015

Textos

Pe Quo Deux

Textos

E qual vantagem teria tal boneco diante dos bailarinos vivos?
A vantagem? Antes de mais nada, uma negativa, meu caro amigo, ou seja, que ele nunca será um bailarino afetado. - Pois a afetação aparece, como o senhor sabe, quando a alma (vis motrix) encontra-se em qualquer outro ponto que não seja o centro de gravidade do movimento. E o operador simplesmente não tem em seu poder nenhum outro ponto, utilizando o arame ou o cordão: assim todos os membros são, como deveriam ser, pesos mortos, meros pêndulos, e seguem simplesmente a lei da gravidade; um dom valioso, que se procura em vão na maior parte dos nossos bailarinos. (…)
Neste sentido, falou, tais bonecos têm a vantagem de ser antigravitacionais. Sobre a inércia da matéria, de todas as propriedades a que mais se opõe à dança, eles não sabem nada: porque a força que os suspende no ar é maior do que aquela que os prende à terra. O que não daria a nossa boa G... para ser sessenta libras mais leve, ou para que um peso desta grandeza viesse ajudá-la em seus entrechats e piruetas? Os bonecos precisam do solo apenas para tocá-lo, como os elfos, e para reavivar os impulsos dos membros por meio de uma interrupção instantânea; nós precisamos dele para descansar, e para nos restabelecer dos cansaços da dança: um momento que evidentemente não é, ele mesmo, de dança, e com o qual não se faz nada além de obrigá-lo a desaparecer o quanto for possível.

KLEIST, Sobre o teatro de marionetes
Tradução Pedro Süssekind

BONANÇA
Considerações sobre o outro lado da margem

Depois da tempestade, sempre há uma bonança, dizem. Com a PeQuod não foi diferente. Vinda de um processo extenuante de dois anos de trabalho para gerar A Tempestade, a companhia viu-se claramente em crise ao final do processo. Como é do seu costume, a PeQuod tentou achar aí mesmo a chave para encerrar aquela fase e celebrar a possibilidade da própria redenção através do teatro... Ou da Dança.
Por mais de uma década, a PeQuod vem se dedicando ao entendimento da movimentação humana, para recriá-la através dos seus bonecos. Nesse estudo, trabalhado nas minúcias, aprendemos muito e – pretensiosamente, posso dizer – chegamos num patamar de qualidade que poucas companhias dedicadas à Animação alcançaram. No entanto, a certa altura, a investigação da movimentação cotidiana pareceu, repentinamente, sem grandes atrativos por ora, ainda que não tivesse sido esgotada. Nesse ponto, buscamos um trabalho que libertasse a companhia do compromisso da gestualidade do dia a dia e nos conduzisse a um estudo do movimento poético, o que nos levou à Dança. Assim nasceu o projeto PEH QUO DEUX, um trocadilho com o nome da companhia e pas de deux.
Graças a Bia Radunsky, pude chegar a Regina Miranda, Paula Nestorov, Marcia Rubin, Cristina Moura e Bruno Cezario, que prontamente atenderam ao chamado e se deixaram invadir pelas infinitas possibilidades que o Teatro de Animação oferece. Uma das premissas da nossa proposta aos coreógrafos convidados era que criassem coreografias que somente um boneco poderia dançar.
A Dança e o Teatro de Animação não estão distantes um do outro tanto quanto parece. Nunca estiveram. Lembro-me que um dos meus primeiros contatos com os bonecos se deu com o velho Sena, quando ele visitava minha escola com suas dançarinas de can-can. Depois veio muito mais: os forrós dançados pelo Chico Daniel, os vietnamitas e suas danças aquáticas e tanta coisa que me inspirou fortemente. Há em nosso repertório uma cena emblemática – a apresentação de Veronika de Vitta no espetáculo Filme Noir, que, de certa maneira, motivou este trabalho, dez anos depois.
Leio e releio o livro Seis Propostas para o Próximo Milênio, de Ítalo Calvino, uma inspiração constante, desde o início dos anos 1990. Sempre desconfiei de que um dia ele me serviria para criar efetivamente um espetáculo. A cada um dos cinco coreógrafos convidados de PEH QUO DEUX, enderecei uma das propostas do livro (que são cinco, apesar do título): leveza, rapidez, multiplicidade, exatidão e visibilidade. Todas caíram como uma luva ao artista que lhe coube, afinadas com a sua assinatura autoral, trajetória, perfil etc. Dali partimos para um trabalho de efetiva troca, experimentação e risco. Durante seis meses de trabalho árduo, revimos nossos processos, avançamos nossos estudos, abandonamos algumas leis.
Regina, Paula, Marcia, Cristina e Bruno, obrigado por tudo!

Miguel Vellinho

(IN)VISIBILIDADE

Ao tomar como ponto de partida a Divina Comédia, cujas “visões se apresentam como projeções de cinema”, Calvino afirma o poder da imagem como anterior à formulação de uma narrativa: “Em torno de uma primeira imagem, outras passam a existir, formando um campo de analogias, simetrias e confrontações”, diz ele. Ao mesmo tempo, adverte que a profusão pode nos tornar cegos. Olhar. Que imagens assaltam nossos sentidos? Não olhar. Que caminhos apontam? O que escondem? Desviar o olhar. Olhar. Olhar de novo.

Regina Miranda

Para mim teatro é entre outras coisas sobre o Encontro. Neste projeto mais uma vez deu-se o encontro. Descobertas, desafios, contaminação, risco - ingredientes tão potentes e a mim tão caros. Essenciais ao se fazer teatro. Agradeço a Miguel, Raquel, Andre, Lili, Marcio, Mariana, Miguel, Bruno, Lilian e a todos da Companhia Pequod. E que aqui e agora com o publico continue acontecendo a beleza do Encontro.

Cristina Moura

Estamos bem no começo, veja você.
Como antes de tudo. Com
mil e um sonhos atrás de nós e
sem nos mover.

Eu não consigo pensar em um saber mais feliz
que este único:
é preciso se tornar um iniciante
Um que escreva a primeira palavra atrás de um
traço
secular.

“Sobre a Melodia das Coisas" de Rainer Maria Rilke. Tradução para o português: Maira Matthes

Paula Nestorov

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Calvino, citando um conto de Kafka, termina assim o capítulo sobre a Leveza:
Assim, a cavalo em nossa cuba, iremos ao encontro do próximo milênio sem esperar encontrar nele nada além daquilo que seremos capazes de levar-lhe. A leveza, por exemplo, cujas virtudes esta conferência procurou ilustrar.
Nós, agora, no milênio projetado por ele, talvez estejamos utilizando pouco a leveza como virtude.
Para mim a leveza está no corpo. Lido com ela como um refinamento do peso. E me aproveito dela nos diálogos com a dança.
Aqui o exercício foi criar este diálogo com bonecos e atores/manipuladores, para construir uma cena que pudesse dar forma e expressão a esta virtude.

Marcia Rubin

APRESSA-TE LENTAMENTE

Século XVIII. As notas musicais avançavam em rotas sem combustível... Longas cartas escritas à mão... Se podia esperar. Não havia outra maneira.
Hoje as informações são guardadas em "nuvens invisíveis", o que parecia extraordinário antes é revelado. A magia é mera ilusão.
Um avião, um navio... A previsão de chuva ou calor... O mundo não é mais um mistério. Tudo é apenas fragmentado em partes que funcionam juntas, como uma máquina. O corpo humano: Tudo o que lhe pertence, todo seu mecanismo vem sendo codificado e estendido, modificado. Mas protegidos de nós próprios descobridores-humanos também estão vários tesouros, curas e horrores.
Rapidamente voava diante dos meus olhos aquela folha solta minúscula... Assim as verdades se criam, por percepções e provas. "É preciso ter certeza!".
No mais profundo mar está a irmã do mesmo grão de areia que tenho em meus pés hoje, em casa. O sal se foi na ducha, que se perdeu num escuro compartimento, e que logo o sol tomou para si e fez a chuva forte de um verão longo criando um lago, bem ali. Os peixes dessa água são diferentes da água salgada, que são diferentes dos peixes com asas que voam entre essa chuva e a nuvem... Pra tudo isso parece haver também uma explicação. Mas o momento exato do início de todos esses pontos é ainda difícil de se saber... ( talvez ) Como incerta também se apresenta a hora do fim.
O céu encapado de nuvem densa despenca. Alguns se recolhem e outros não, se deixam molhar... Derretendo-se vão-se horas, peles; e a alma ainda se pergunta pra onde... "Inutilmente..."
Traçamos caminhos para ter algum sentido. Marcamos encontros para ter a quem ver.
Se o corpo reage ao calor, ao frio, à dor, quando o mesmo pára, quem garante que essa massa continua a ter uma função maior que a de regar, adubar a própria terra ou se perder em cinzas num ar sem barreiras e cheio de grãos de areia, de átomos, de elétrons, de vazio?..
Lentamente ele se apressa. Ele, o ouro de mim à quem eu me apego, lentamente dançando, para um momento decidido à findar, para sair da caixa que conserva as idéias, à ficar por onde quer que seja. Pois se já não existirá o que pensa, que organiza, não há mais nada com o que se preocupar comigo. Esse Eu que não me pertence mais existirá apenas na sua caixa, até quando ela funcionar mesmo que por acaso, recebendo estímulo, criando mais idéias sobre mim, sobre ele, e ainda mais sobre o infinito universo que só é infinito porque a idéia dele fortaleceu a minha, que fortalecerá a dela, e assim incessantemente até a próxima avalanche de pedras cósmicas destruidoras fazer tudo recomeçar de um novo zero... "Que zero? Que evolução? Que palavras são essas??"
Verdades são congeladores individuais. O tempo é singular. O encontro é único.
O lago se forma até o calor estender sobre ele o seu lençol.
Chove. Nada-se. Peixes e pássaros! Universo misterioso de indagações frias e luzes escaldantes...
De repente fiquei sem pressa.
"Cansou." Disse.
Apressar-se para onde? Para o quê?
"Ter pressa é bobagem."
Não, não é.

Bruno Cezario