Sinopse
2 de março de 2015
Críticas
2 de março de 2015

Textos

Marina

Textos

A água que nos move

Sonha-se antes de contemplar. Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica. Só olhamos com paixão estética as paisagens que vimos antes em sonho.

Gaston Bachelard
Após dez anos de trabalhos ininterruptos e lidando com variações da mesma técnica – a manipulação direta –, é natural que a Cia. PeQuod mergulhe, literalmente, em novas buscas, como forma de oxigenação e renovação do nosso ofício. Era preciso que nosso novo espetáculo fosse algo tão forte visualmente e tecnicamente quanto nossas conquistas anteriores. Era preciso que houvesse um arrebatamento geral no grupo que compõe a ficha técnica deste trabalho. Era preciso que fosse extremamente desafiador e que nos movesse.

Em nossa montagem de O Velho da Horta, do português Gil Vicente, em 2002, criamos uma situação – não sugerida no texto original – em que o protagonista, ao final de dura derrocada, adentra o córrego que faz margem com a sua horta e ali recupera, como em uma redenção, a força para continuar acreditando na vida e no amor. Na verdade, tratava-se de um dispositivo cênico, uma piscina, que se assemelhava ao um lago. A beleza instaurada pelo uso de água nessa cena provocou-nos a vontade de ir além e de imergir nossos bonecos na água, para extrair dela uma poética cênica que nos permitisse novas possibilidades.

Aliado a isso estava meu profundo maravilhamento com as marionetes aquáticas da companhia Thang Long Water Puppets Theatre, do Vietnã, a que tive o privilégio de assistir em algum momento dos anos 90. O caráter festivo dessa manifestação artística, embalada pela música de pontuação forte e ao vivo, compunha um espetáculo de rara beleza, em que a água era o elemento principal. A concretude desse elemento em cena ditava movimentos e dinâmicas únicos e irreprodutíveis em qualquer outro ambiente. Seu congraçamento com a cenografia e a iluminação me despertou a vontade de experimentar algo parecido. No entanto, diferentemente dos vietnamitas, que fazem surgir dragões e bailarinas na superfície da água, meu interesse estava na total submersão.

Alguns anos mais tarde, escolhida a história que conduziria essa provocação: A Sereiazinha, popular conto de Hans Christian Andersen, aproximei-a das canções praieiras de Dorival Caymmi. Sobrepostas, a fábula do escritor dinamarquês e as músicas do compositor baiano têm seu aspecto trágico realçado. A personagem de Andersen se revela descendente da mesma linhagem de heroínas das tragédias clássicas, mulheres que amargaram as consequências da decisão de contrariar a lei, em nome de seus anseios. E os doces versos de Caymmi se mostram inspirados não apenas nas delícias e belezas, mas também na tristeza do que é irremediável.

Nosso trabalho tem se dado através de cruzamentos como esse. O Teatro de Animação, em geral, é assim. Ou pelo menos deveria ser. A interseção entre a imaginação sem limites de Andersen, o refinamento do cancioneiro de Caymmi e a estética que define e diferencia a Cia. PeQuod faz de Marina um projeto de caráter único e certamente inédito no país.

Nosso estudo, que se iniciou com a pesquisa dos movimentos de bonecos dentro da água, refletiu em outros âmbitos da produção. Nossos processos de construção dos bonecos tiveram que eliminar todo material que se deteriorasse com a ação da água. O alumínio entrou no lugar da madeira; o silicone, no lugar dos tecidos. O cenário agora pesa toneladas. A iluminação leva em conta a refração da luz na água.

O desafio de “afogar” nossos bonecos foi adiado por anos, até que tivéssemos maturidade, condições e estrutura para encará-lo. A hora chegou, embalada por essas duas genialidades que são Andersen e Caymmi, que se cruzaram para nos inspirar de forma arrebatadora. Aqui está o melhor da PeQuod, com todas as surpresas que só ela pode oferecer. Bom espetáculo!

Miguel Vellinho, texto para o programa do espetáculo

Sereias

Ao longo do tempo, as sereias mudam de forma. Seu primeiro historiador, o rapsodo do livro XII da Odisséia, não conta com o eram; para Ovídio, são aves de plumagem avermelhada e rosto de virgem; para Apolônio de Rodes, da metade do corpo para cima são mulheres e da metade para baixo aves marinhas; para mestre Tirso de Molina (e para a heráldica), “metade mulheres, metade peixes”. Não menos discutível é seu gênero; o dicionário clássico de Lemprière entende que são ninfas, o Quicheart que são monstros, e o de Grimal que são demônios. Moram numa ilha do poente, perto da ilha de Circe, mas o cadáver de uma delas Partênope, foi encontrado na Campânia e deu seu nome à famosa cidade que agora se chama Nápoles, e o geógrafo Estrabão viu sua sepultura e assistiu aos jogos ginásticos celebrados periodicamente para honrar sua memória.

A Odisséia conta que as sereias atraíam os navegantes e os levavam à ruína, e que Ulisses, para ouvir seu canto e não perecer, tapou os ouvidos dos remadores com cera e ordenou que o amarrassem ao mastro. Para tentá-lo, as sereias lhe ofereceram o conhecimento de todas as coisas do mundo.

“Ninguém até hoje passou por aqui em seu negro navio sem ter escutado de nossa boca a voz doce como o favo de mel e ter se deleitado com ela e ter prosseguido mais sábio... Porque sabemos todas as coisas: quantos afãs padeceram argivos e troianos na vasta Tróia por determinação dos deuses, e sabemos tudo o que há de acontecer na terra fecunda.” (Odisséia, XII)
Uma tradição recolhida pelo mitólogo Apolodoro em sua Biblioteca narra que Orfeu, a bordo da nave dos argonautas, cantou com mais doçura que as sereias e que estas se jogaram no mar e se transformaram em rochedos, porque sua lei era morrer quando alguém não fosse afetado por seu feitiço.
A esfinge também se precipitou das alturas quando adivinharam seu enigma.

No século VI, uma sereia foi capturada e batizada no norte de Gales, e aparece como santa em certos almanaques antigos com nome de Murgen. Outra, em 1403, passou por uma brecha de um dique e viveu em Haarlem até o dia de sua morte. Ninguém a compreendia, mas ensinaram-na a fiar e ela venerava a cruz por um instinto. Um cronista do século XVI argumentou que ela não era peixe porque sabia fiar, e não era mulher porque podia viver na água.

O idioma inglês distingue a sereia clássica (siren) das que têm cauda de peixe (mermaids). Na formação desta última imagem teriam influído por analogia doa tritões, divindades do cortejo de Posêidon. No livro x da República, oito sereias presidem à revolução dos oito céus concêntricos.

Sereia: hipotético animal marinho, lemos num dicionário brutal.

Jorge Luis Borges, verbete de O livro do seres imaginários