ESTREIA: AGOSTO DE 2010

LOCAL: TEATRO III DO CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL, RIO DE JANEIRO

ELENCO ORIGINAL: LILIANE XAVIER, MARIANA FAUSTO, MONA VILARDO, LEANDRO MUNIZ, MÁRCIO NASCIMENTO E MIGUEL ARAÚJO

INDICAÇÕES: PRÊMIO SHELL DE TEATRO (CATEGORIA ESPECIAL)
PRÊMIO APTR DE TEATRO. MELHOR ILUMINAÇÃO (RENATO MACHADO) E CATEGORIA ESPECIAL (CIA PEQUOD)

 

 

Esta montagem nasce do cruzamento do conto A Sereiazinha, de Hans Christian Andersen com as canções praieiras de Dorival Caymmi. Assim, a PeQuod foi até o fundo do mar para trazer para os palcos toda a riqueza e beleza do ambiente submarítimo. Para isso, quatro grandes aquários servem de cenário para bonecos que contracenam debaixo da água proporcionando uma dinâmica e uma poética irreproduzível em outro ambiente. A inspiração veio da tradicional manifestação teatral das marionetes aquáticas do Vietnã. No entanto. Sob o olhar contemporâneo da PeQuod, a tradição se funde à mais alta tecnologia para dar conta da bela história de Andersen. Nesta versão para adultos, Marina, a protagonista da história, se revela descendente da mesma linhagem de heroínas das tragédias clássicas, mulheres que amargaram as consequências da decisão de contrariar a lei, em nome de seus anseios.

A água que nos move

Sonha-se antes de contemplar. Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica. Só olhamos com paixão estética as paisagens que vimos antes em sonho.

Gaston Bachelard
Após dez anos de trabalhos ininterruptos e lidando com variações da mesma técnica – a manipulação direta –, é natural que a Cia. PeQuod mergulhe, literalmente, em novas buscas, como forma de oxigenação e renovação do nosso ofício. Era preciso que nosso novo espetáculo fosse algo tão forte visualmente e tecnicamente quanto nossas conquistas anteriores. Era preciso que houvesse um arrebatamento geral no grupo que compõe a ficha técnica deste trabalho. Era preciso que fosse extremamente desafiador e que nos movesse.

Em nossa montagem de O Velho da Horta, do português Gil Vicente, em 2002, criamos uma situação – não sugerida no texto original – em que o protagonista, ao final de dura derrocada, adentra o córrego que faz margem com a sua horta e ali recupera, como em uma redenção, a força para continuar acreditando na vida e no amor. Na verdade, tratava-se de um dispositivo cênico, uma piscina, que se assemelhava ao um lago. A beleza instaurada pelo uso de água nessa cena provocou-nos a vontade de ir além e de imergir nossos bonecos na água, para extrair dela uma poética cênica que nos permitisse novas possibilidades.

Aliado a isso estava meu profundo maravilhamento com as marionetes aquáticas da companhia Thang Long Water Puppets Theatre, do Vietnã, a que tive o privilégio de assistir em algum momento dos anos 90. O caráter festivo dessa manifestação artística, embalada pela música de pontuação forte e ao vivo, compunha um espetáculo de rara beleza, em que a água era o elemento principal. A concretude desse elemento em cena ditava movimentos e dinâmicas únicos e irreprodutíveis em qualquer outro ambiente. Seu congraçamento com a cenografia e a iluminação me despertou a vontade de experimentar algo parecido. No entanto, diferentemente dos vietnamitas, que fazem surgir dragões e bailarinas na superfície da água, meu interesse estava na total submersão.

Alguns anos mais tarde, escolhida a história que conduziria essa provocação: A Sereiazinha, popular conto de Hans Christian Andersen, aproximei-a das canções praieiras de Dorival Caymmi. Sobrepostas, a fábula do escritor dinamarquês e as músicas do compositor baiano têm seu aspecto trágico realçado. A personagem de Andersen se revela descendente da mesma linhagem de heroínas das tragédias clássicas, mulheres que amargaram as consequências da decisão de contrariar a lei, em nome de seus anseios. E os doces versos de Caymmi se mostram inspirados não apenas nas delícias e belezas, mas também na tristeza do que é irremediável.

Nosso trabalho tem se dado através de cruzamentos como esse. O Teatro de Animação, em geral, é assim. Ou pelo menos deveria ser. A interseção entre a imaginação sem limites de Andersen, o refinamento do cancioneiro de Caymmi e a estética que define e diferencia a Cia. PeQuod faz de Marina um projeto de caráter único e certamente inédito no país.

Nosso estudo, que se iniciou com a pesquisa dos movimentos de bonecos dentro da água, refletiu em outros âmbitos da produção. Nossos processos de construção dos bonecos tiveram que eliminar todo material que se deteriorasse com a ação da água. O alumínio entrou no lugar da madeira; o silicone, no lugar dos tecidos. O cenário agora pesa toneladas. A iluminação leva em conta a refração da luz na água.

O desafio de “afogar” nossos bonecos foi adiado por anos, até que tivéssemos maturidade, condições e estrutura para encará-lo. A hora chegou, embalada por essas duas genialidades que são Andersen e Caymmi, que se cruzaram para nos inspirar de forma arrebatadora. Aqui está o melhor da PeQuod, com todas as surpresas que só ela pode oferecer. Bom espetáculo!

Miguel Vellinho, texto para o programa do espetáculo
Sereias

Ao longo do tempo, as sereias mudam de forma. Seu primeiro historiador, o rapsodo do livro XII da Odisséia, não conta com o eram; para Ovídio, são aves de plumagem avermelhada e rosto de virgem; para Apolônio de Rodes, da metade do corpo para cima são mulheres e da metade para baixo aves marinhas; para mestre Tirso de Molina (e para a heráldica), “metade mulheres, metade peixes”. Não menos discutível é seu gênero; o dicionário clássico de Lemprière entende que são ninfas, o Quicheart que são monstros, e o de Grimal que são demônios. Moram numa ilha do poente, perto da ilha de Circe, mas o cadáver de uma delas Partênope, foi encontrado na Campânia e deu seu nome à famosa cidade que agora se chama Nápoles, e o geógrafo Estrabão viu sua sepultura e assistiu aos jogos ginásticos celebrados periodicamente para honrar sua memória.

A Odisséia conta que as sereias atraíam os navegantes e os levavam à ruína, e que Ulisses, para ouvir seu canto e não perecer, tapou os ouvidos dos remadores com cera e ordenou que o amarrassem ao mastro. Para tentá-lo, as sereias lhe ofereceram o conhecimento de todas as coisas do mundo.

“Ninguém até hoje passou por aqui em seu negro navio sem ter escutado de nossa boca a voz doce como o favo de mel e ter se deleitado com ela e ter prosseguido mais sábio… Porque sabemos todas as coisas: quantos afãs padeceram argivos e troianos na vasta Tróia por determinação dos deuses, e sabemos tudo o que há de acontecer na terra fecunda.” (Odisséia, XII)
Uma tradição recolhida pelo mitólogo Apolodoro em sua Biblioteca narra que Orfeu, a bordo da nave dos argonautas, cantou com mais doçura que as sereias e que estas se jogaram no mar e se transformaram em rochedos, porque sua lei era morrer quando alguém não fosse afetado por seu feitiço.
A esfinge também se precipitou das alturas quando adivinharam seu enigma.

No século VI, uma sereia foi capturada e batizada no norte de Gales, e aparece como santa em certos almanaques antigos com nome de Murgen. Outra, em 1403, passou por uma brecha de um dique e viveu em Haarlem até o dia de sua morte. Ninguém a compreendia, mas ensinaram-na a fiar e ela venerava a cruz por um instinto. Um cronista do século XVI argumentou que ela não era peixe porque sabia fiar, e não era mulher porque podia viver na água.

O idioma inglês distingue a sereia clássica (siren) das que têm cauda de peixe (mermaids). Na formação desta última imagem teriam influído por analogia doa tritões, divindades do cortejo de Posêidon. No livro x da República, oito sereias presidem à revolução dos oito céus concêntricos.

Sereia: hipotético animal marinho, lemos num dicionário brutal.

Jorge Luis Borges, verbete de O livro do seres imaginários

Crítica do espetáculo Marina
JORNAL DO BRASIL
Caderno B
19 de agosto de 2010.

Poesia debaixo d’água
Espetáculo de bonecos junta Andersen e Caymmi
por Macksen Luiz

O grupo de animação de bonecos PeQuod, com mais de dez anos de fundação, mantém repetório afinado com a experimentação de várias linguagens do gênero. Utilizando técnicas diversas de manipulação, atores que dividdem com os bonecos a cena, e narrativas que procuram dramaturgia própria, o coletivo tem demostrado permanente inquietação e pesquisa. Do cinema, importou os tons sombrios em Filme Noir, de Ibsen, a transcrição de Peer Gynt, do Nordeste brasileiro, A chegada de Lampião ao inferno, e atualmente, no Teatro III do CCBB, Marina, uma adaptação de A sereiazinha, de Hans Christian Andersen, com músicas de Dorival Caymmi.

Desta vez, a novidade está nos bonecos que “atuam” na água, embalados pelas canções praieiras de Caymmi. Com cenograia que distribui em quatro aquários e pequeno tanque os quadros que contam a história da sereia que se desfaz em espuma, o Pequod propõe concepção de musical, com as letras das canções ilustrando a trama da pequena sereia. Com iluminação que valoriza o cenário dos aquários, e bonecos com elasticidade que os fazem parecer nadar, se percebe a qualidade da execução de cada um deles, e o bom uso do material que permite criar a ilusão de que flutuam. Na junção de atores e bonecos e na concepção cenográfica atraente, criam-se enquadramentos em que os cortes visuais dão uma dimensão, ora reduzida, ora ampliada da cena.

A direção e dramaturgia de Miguel Vellinho, a cenografia de Carlos Alberto Nunes, a iluminação de Renato Machado e os figurinos de Daniele Geammal compõem comunicabilidade envolvente. Algumas imagens alcançam um lirismo visual, como a que se segue ao prólogo em total escuridão em que belos barcos, delicadamente iluminados, sobrenadam em cena como flutuantes condutores de um imaginário poético.

Elenco: Liliane Xavier, Mariana Fausto, Mona Vilardo, Leandro Muniz, Márcio Nascimento e Miguel Araújo
Direção e dramaturgia: Miguel Vellinho
Assessoria Teórica: Karl Erik Schollhammer
Cenografia: Carlos Alberto Nunes
Iluminação: Renato Machado
Figurinos: Daniele Geammal
Direção Musical: Fabiano Krieger
Preparação vocal: Doriana Mendes
Fotografia: Simone Rodrigues
Design gráfico: Roberta de Freitas
Produção musical: Eduardo Manso, Estevão Casé e Fabiano Krieger
Projeto de sonorização: Andréa Zeni
Microfonista: Marcos Nicolaiewsky
Assistente de figurino: Renata Cortes
Costureira: Fátima Araújo
Escultura dos bonecos: Bruno Dantas
Confecção dos bonecos: Carlos Alberto Nunes, Dolores Marques, Gabriela Christ, Marcos Nicolaiewsky, Michel Sousa, Miguel Vellinho, Mônica Souza e Fernanda Thurner
Estagiários PeQuod: Giulia Caminha, Alberto Naar, Marcos Nicolaiewsky, Miguel Araújo, e Mônica Souza
Realização: Cia PeQuod -Teatro de Animação

Público-alvo: A partir dos 14 até adultos.
Espaço: Teatros tradicionais. A relação com a platéia deve ser sempre, frontal.
Dimensões mínimas do palco: 8m de boca-de-cena, 11m de profundidade e 4,5m de altura.
Duração do espetáculo: Ato único com cerca de 70 min.
Tempo de montagem: Cerca de 14h.
Tempo de desmontagem: Cerca de 10h. (4 horas para esvaziar os aquários sem poder desmontar a base da cenografia e nem a iluminação sobre o cenário)

Necessidades Técnicas – Pessoal e Equipamento

Pessoal de apoio à montagem: 02 montadores de luz e 02 cenotécnicos; 4 carregadores (os carregadores deverão estar capacitados a lidar com materiais delicados como aquários (cada um pesa 200 kg sem água))

Equipamento de luz: 7 Elipsoidais ARE; 6 Elipsoidais ETC 36o.;4 Elipsoidais ETC 50o.; 12 Fres-néis 1000w; 8 Fres-néis 650w ADB; 11 Locolights; 8 Pin Beams; 14 PCs 1000w; 32 Par #5; 10 Par #5 (220v); 20 Par #2 (10 220v); 2 Par #1 e sistema com 72 canais.
Equipamento de som: amplificador, caixas, mesa com 24 canais e 02 aparelhos de CD que serão mixados durante o espetáculo. A potência do equipamento deve estar adequada às características do local da apresentação. O espetáculo utiliza 7 microfones sem fio que pertencem e acompanham a PeQuod.

Transporte do cenário: o cenário pode ser levado em um caminhão-baú de 7m, com cerca de 3h de tempo para carga e 2 h para descarga. O tempo de carga e descarga pode variar em função da quantidade de carregadores.

Elenco: 06 atores-manipuladores, 01 operador de luz, 01 operador de som, 01 cenotécnico responsável pela montagem do cenário; 01 contrarregra/microfonista.

Observação importante: O espaço de apresentação precisa ser adequado ao peso geral do cenário que é de aproximadamente de quatro toneladas, sendo que na parte onde se localizam os aquários o piso deverá suportar no mínimo 300kg por metro quadrado. Assim solicita-se à produção local um laudo técnico de um engenheiro calculista com emissão de ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) para aprovar a montagem do cenário. Será necessário também fácil acesso ao sistema hidráulico local para encher e esvaziar os aquários.