ESTREIA: JANEIRO DE 2014

LOCAL: OI FUTURO FLAMENGO

ELENCO ORIGINAL: RAQUEL BOTAFOGO, LILIANE XAVIER, MARIANA FAUSTO, ANDRÉ GRACINDO, MIGUEL ARAÚJO E MÁRCIO NEWLANDS

Peh Quo Deux reúne cinco artistas importantes da dança contemporânea em torno de uma mesma ideia. Partindo dos temas propostos pelo escritor italiano Italo Calvino em seu livro Seis Propostas para o Próximo Milênio, o diretor Miguel Vellinho convidou os coreógrafos Bruno Cezario, Cristina Moura, Marcia Rubin, Paula Nestorov e Regina Miranda para criar pas de deux para bonecos. A cada um deles coube um dos temas abordados por Calvino: a multiplicidade ficou com Paula Nestorov, a visibilidade com Regina Miranda, Cristina Moura assumiu a exatidão, Marcia Rubin a leveza e Bruno Cezario a rapidez.

E qual vantagem teria tal boneco diante dos bailarinos vivos?
A vantagem? Antes de mais nada, uma negativa, meu caro amigo, ou seja, que ele nunca será um bailarino afetado. – Pois a afetação aparece, como o senhor sabe, quando a alma (vis motrix) encontra-se em qualquer outro ponto que não seja o centro de gravidade do movimento. E o operador simplesmente não tem em seu poder nenhum outro ponto, utilizando o arame ou o cordão: assim todos os membros são, como deveriam ser, pesos mortos, meros pêndulos, e seguem simplesmente a lei da gravidade; um dom valioso, que se procura em vão na maior parte dos nossos bailarinos. (…)
Neste sentido, falou, tais bonecos têm a vantagem de ser antigravitacionais. Sobre a inércia da matéria, de todas as propriedades a que mais se opõe à dança, eles não sabem nada: porque a força que os suspende no ar é maior do que aquela que os prende à terra. O que não daria a nossa boa G… para ser sessenta libras mais leve, ou para que um peso desta grandeza viesse ajudá-la em seus entrechats e piruetas? Os bonecos precisam do solo apenas para tocá-lo, como os elfos, e para reavivar os impulsos dos membros por meio de uma interrupção instantânea; nós precisamos dele para descansar, e para nos restabelecer dos cansaços da dança: um momento que evidentemente não é, ele mesmo, de dança, e com o qual não se faz nada além de obrigá-lo a desaparecer o quanto for possível.

KLEIST, Sobre o teatro de marionetes
tradução Pedro Süssekind

 

BONANÇA
Considerações sobre o outro lado da margem

Depois da tempestade, sempre há uma bonança, dizem. Com a PeQuod não foi diferente. Vinda de um processo extenuante de dois anos de trabalho para gerar A Tempestade, a companhia viu-se claramente em crise ao final do processo. Como é do seu costume, a PeQuod tentou achar aí mesmo a chave para encerrar aquela fase e celebrar a possibilidade da própria redenção através do teatro… Ou da Dança.
Por mais de uma década, a PeQuod vem se dedicando ao entendimento da movimentação humana, para recriá-la através dos seus bonecos. Nesse estudo, trabalhado nas minúcias, aprendemos muito e – pretensiosamente, posso dizer – chegamos num patamar de qualidade que poucas companhias dedicadas à Animação alcançaram. No entanto, a certa altura, a investigação da movimentação cotidiana pareceu, repentinamente, sem grandes atrativos por ora, ainda que não tivesse sido esgotada. Nesse ponto, buscamos um trabalho que libertasse a companhia do compromisso da gestualidade do dia a dia e nos conduzisse a um estudo do movimento poético, o que nos levou à Dança. Assim nasceu o projeto PEH QUO DEUX, um trocadilho com o nome da companhia e pas de deux.
Graças a Bia Radunsky, pude chegar a Regina Miranda, Paula Nestorov, Marcia Rubin, Cristina Moura e Bruno Cezario, que prontamente atenderam ao chamado e se deixaram invadir pelas infinitas possibilidades que o Teatro de Animação oferece. Uma das premissas da nossa proposta aos coreógrafos convidados era que criassem coreografias que somente um boneco poderia dançar.
A Dança e o Teatro de Animação não estão distantes um do outro tanto quanto parece. Nunca estiveram. Lembro-me que um dos meus primeiros contatos com os bonecos se deu com o velho Sena, quando ele visitava minha escola com suas dançarinas de can-can. Depois veio muito mais: os forrós dançados pelo Chico Daniel, os vietnamitas e suas danças aquáticas e tanta coisa que me inspirou fortemente. Há em nosso repertório uma cena emblemática – a apresentação de Veronika de Vitta no espetáculo Filme Noir, que, de certa maneira, motivou este trabalho, dez anos depois.
Leio e releio o livro Seis Propostas para o Próximo Milênio, de Ítalo Calvino, uma inspiração constante, desde o início dos anos 1990. Sempre desconfiei de que um dia ele me serviria para criar efetivamente um espetáculo. A cada um dos cinco coreógrafos convidados de PEH QUO DEUX, enderecei uma das propostas do livro (que são cinco, apesar do título): leveza, rapidez, multiplicidade, exatidão e visibilidade. Todas caíram como uma luva ao artista que lhe coube, afinadas com a sua assinatura autoral, trajetória, perfil etc. Dali partimos para um trabalho de efetiva troca, experimentação e risco. Durante seis meses de trabalho árduo, revimos nossos processos, avançamos nossos estudos, abandonamos algumas leis.
Regina, Paula, Marcia, Cristina e Bruno, obrigado por tudo!

Miguel Vellinho

 

(IN)VISIBILIDADE

Ao tomar como ponto de partida a Divina Comédia, cujas “visões se apresentam como projeções de cinema”, Calvino afirma o poder da imagem como anterior à formulação de uma narrativa: “Em torno de uma primeira imagem, outras passam a existir, formando um campo de analogias, simetrias e confrontações”, diz ele. Ao mesmo tempo, adverte que a profusão pode nos tornar cegos. Olhar. Que imagens assaltam nossos sentidos? Não olhar. Que caminhos apontam? O que escondem? Desviar o olhar. Olhar. Olhar de novo.

Regina Miranda

 

Para mim teatro é entre outras coisas sobre o Encontro. Neste projeto mais uma vez deu-se o encontro. Descobertas, desafios, contaminação, risco – ingredientes tão potentes e a mim tão caros. Essenciais ao se fazer teatro. Agradeço a Miguel, Raquel, Andre, Lili, Marcio, Mariana, Miguel, Bruno, Lilian e a todos da Companhia Pequod. E que aqui e agora com o publico continue acontecendo a beleza do Encontro.

Cristina Moura

Estamos bem no começo, veja você.
Como antes de tudo. Com
mil e um sonhos atrás de nós e
sem nos mover.

Eu não consigo pensar em um saber mais feliz
que este único:
é preciso se tornar um iniciante
Um que escreva a primeira palavra atrás de um
traço
secular.

“Sobre a Melodia das Coisas” de Rainer Maria Rilke. Tradução para o português: Maira Matthes

Paula Nestorov

—————————————————————————

Calvino, citando um conto de Kafka, termina assim o capítulo sobre a Leveza:
Assim, a cavalo em nossa cuba, iremos ao encontro do próximo milênio sem esperar encontrar nele nada além daquilo que seremos capazes de levar-lhe. A leveza, por exemplo, cujas virtudes esta conferência procurou ilustrar.
Nós, agora, no milênio projetado por ele, talvez estejamos utilizando pouco a leveza como virtude.
Para mim a leveza está no corpo. Lido com ela como um refinamento do peso. E me aproveito dela nos diálogos com a dança.
Aqui o exercício foi criar este diálogo com bonecos e atores/manipuladores, para construir uma cena que pudesse dar forma e expressão a esta virtude.

Marcia Rubin

 

APRESSA-TE LENTAMENTE

Século XVIII. As notas musicais avançavam em rotas sem combustível… Longas cartas escritas à mão… Se podia esperar. Não havia outra maneira.
Hoje as informações são guardadas em “nuvens invisíveis”, o que parecia extraordinário antes é revelado. A magia é mera ilusão.
Um avião, um navio… A previsão de chuva ou calor… O mundo não é mais um mistério. Tudo é apenas fragmentado em partes que funcionam juntas, como uma máquina. O corpo humano: Tudo o que lhe pertence, todo seu mecanismo vem sendo codificado e estendido, modificado. Mas protegidos de nós próprios descobridores-humanos também estão vários tesouros, curas e horrores.
Rapidamente voava diante dos meus olhos aquela folha solta minúscula… Assim as verdades se criam, por percepções e provas. “É preciso ter certeza!”.
No mais profundo mar está a irmã do mesmo grão de areia que tenho em meus pés hoje, em casa. O sal se foi na ducha, que se perdeu num escuro compartimento, e que logo o sol tomou para si e fez a chuva forte de um verão longo criando um lago, bem ali. Os peixes dessa água são diferentes da água salgada, que são diferentes dos peixes com asas que voam entre essa chuva e a nuvem… Pra tudo isso parece haver também uma explicação. Mas o momento exato do início de todos esses pontos é ainda difícil de se saber… ( talvez ) Como incerta também se apresenta a hora do fim.
O céu encapado de nuvem densa despenca. Alguns se recolhem e outros não, se deixam molhar… Derretendo-se vão-se horas, peles; e a alma ainda se pergunta pra onde… “Inutilmente…”
Traçamos caminhos para ter algum sentido. Marcamos encontros para ter a quem ver.
Se o corpo reage ao calor, ao frio, à dor, quando o mesmo pára, quem garante que essa massa continua a ter uma função maior que a de regar, adubar a própria terra ou se perder em cinzas num ar sem barreiras e cheio de grãos de areia, de átomos, de elétrons, de vazio?..
Lentamente ele se apressa. Ele, o ouro de mim à quem eu me apego, lentamente dançando, para um momento decidido à findar, para sair da caixa que conserva as idéias, à ficar por onde quer que seja. Pois se já não existirá o que pensa, que organiza, não há mais nada com o que se preocupar comigo. Esse Eu que não me pertence mais existirá apenas na sua caixa, até quando ela funcionar mesmo que por acaso, recebendo estímulo, criando mais idéias sobre mim, sobre ele, e ainda mais sobre o infinito universo que só é infinito porque a idéia dele fortaleceu a minha, que fortalecerá a dela, e assim incessantemente até a próxima avalanche de pedras cósmicas destruidoras fazer tudo recomeçar de um novo zero… “Que zero? Que evolução? Que palavras são essas??”
Verdades são congeladores individuais. O tempo é singular. O encontro é único.
O lago se forma até o calor estender sobre ele o seu lençol.
Chove. Nada-se. Peixes e pássaros! Universo misterioso de indagações frias e luzes escaldantes…
De repente fiquei sem pressa.
“Cansou.” Disse.
Apressar-se para onde? Para o quê?
“Ter pressa é bobagem.”
Não, não é.

Bruno Cezario

CIA PEQUOD ACERTA COM NOVOS OLHARES
Dança
Peh quo deux
Cotação: Ótimo

Adriana Pavlova
Segundo Caderno – O Globo
17/01/2014

Uma ótima surpresa abre a temporada de dança de 2014. Em cartaz no Oi Futuro Flamengo, “Peh quo deux” é a reveladora incursão da Cia PeQuod – Teatro de Animação no mundo da dança. A companhia, consagrada por sua pesquisa da movimentação humana através do uso de bonecos, conseguiu refinar ainda mais seu trabalho, a partir do olhar de cinco coreógrafos.
Para criar seus quadros , os artistas partiram do livro “Seis propostas para o próximo milênio” de Ítalo Calvino, que, na verdade, são cinco, apesar do título: leveza, rapidez, multiplicidade, exatidão e visibilidade. No palco essas ideias se misturam sem que isso se transforme num problema. Ao contrário.
A cena de uma faxineira com seu balde de limpeza e seu duplo em movimentos sutis para limpar o chão é o prólogo concebido por Paula Nestorov, que ao longo do espetáculo volta ao palco, no meio e no fim, pontuando “Peh quo deux”. Trata-se da mesma manipulação de bonecos que fez a fama da companhia, só que com mais sofisticação de movimentos e muita delicadeza. Ponto para a PeQuod, que soube se valer da sabedoria coreográfica de Nestorov, artista, infelizmente, hoje tão ausente dos palcos da cidade.
Regina Miranda chega para desestabilizar, com sua “Visibilidade” criada a partir da estética de videogame. É puro teatro pós-dramático, no qual todos os elementos da cena brigam para chamar a atenção do espectador. E nesse caso os elementos incluem projeções de vídeo num telão, com reproduções de jogos eletrônicos, imagens realistas de gente sequelada por guerras, som muito alto e bonecos colados ao corpo dos manipuladores. O resultado fica acima do tom, mas, numa outra leitura, acaba também mostrando como os intérpretes da PeQuod são capazes de dar conta de diferentes linguagens e propostas.
O clima muda totalmente com “Exatidão” de Cristina Moura, abrindo uma sequencia de delicados pas-de-deux até o fim do espetáculo. Neste, a figura bizarra de um boneco gordinho faz lembrar os personagens errantes de “May B”, espetáculo seminal da coreógrafa francesa Maguy Marin inspirado em Samuel Beckett. O personagem curioso tem um encontro com um boneco-criança. Lindo de ver.
“Leveza”, de Marcia Rubin, é o mais narrativo dos quadros, e isso não é nem um pouco problemático. Dois homens têm um encontro regado a álcool num restaurante onde há uma jukebox. A trilha sonora gostosa dá o tom da movimentação cheia de nuances, com humor e compaixão.
Enfim, é a vez de Bruno Cezario, que, por seu passado ligado ao balé clássico, exibe em “Rapidez” um duo de bonecos em que é possível imaginá-los dançando com sapatilhas nas pontas. É aqui que os seis intérpretes (Raquel Botafogo, Liliane Xavier, Mariana Fausto, André Gracindo, Miguel Araújo e Márcio Newlands), que já deram uma aula de segurança em seu ofício, ganham ainda mais a cena, com uma movimentação complementar à dos bonecos. Boa ousadia.
O desafio de trazer novos olhares e, sobretudo, novos movimentos para a PeQuod deu certo. O grupo comandado pelo diretor Miguel Vellinho prova, com “Peh quo deux”, que hibridações podem ser bem-vindas. É a arte do novo milênio borrando as fronteiras e criando novas percepções para o público.

PEH QUO DEUX com coreografias de REGINA MIRANDA, CRISTINA MOURA, PAULA NESTOROV, MARCIA RUBIN E BRUNO CEZARIO

Elenco: RAQUEL BOTAFOGO, LILIANE XAVIER, MARIANA FAUSTO, ANDRÉ GRACINDO, MIGUEL ARAÚJO E MÁRCIO NEWLANDS

Direção geral: MIGUEL VELLINHO

Cenografia: DÓRIS ROLLEMBERG

Figurino do elenco: DANIELE GEAMMAL E LUNA SANTOS

Figurino dos bonecos: KIKA DE MEDINA

Iluminação: RENATO MACHADO

Escultura e concept art dos bonecos: BRUNO DANTE

Confecção dos bonecos: MARGARETH MOURA, REGINA M. KATAYAMA BRAGA, BRUNO DANTE E MIGUEL VELLINHO
assistência de confecção PATRÍCIA DELVAUX, CAMILO PACHECO E VITOR MATOS

Assessoria de imprensa: ROBERTA RANGEL

Design gráfico: ROBERTA DE FREITAS

Fotografia: SIMONE RODRIGUES

Cenotécnico: DERÔ MARTINS, CUSTÓDIO VIEIRA, JADAA FARIA, RAPHAELL LOURENÇO, PEDRO WARD E JAIR PEREIRA

Operação de som: TELMA LEMOS

Operação de luz: RODRIGO MACIEL

Montagem de luz: RODRIGO MACIEL BASTOS, NECK VILANOVA E LUIZ PAULO DE MEDEIROS

Contrarregra: RENATO SILVA

Costureiros: FÁTIMA ARAÚJO E CAIO BRAGA

Administração do projeto: LILIANE XAVIER

Produção executiva: ANDRÉ ROMAN

Direção de produção: LILIAN BERTIN

Um espetáculo da CIA PEQUOD – TEATRO DE ANIMAÇÃO